agosto 03, 2020

Evanescente

E eles foram assim:

Tornando-se ausente

A cada passo,

A cada dia,

Rumo a um adeus

Cada vez mais previsível

Quanto inexorável.

 

E então o fim apresentou-se

Com toda pompa e circunstância

E à sua volta instaurou a tristeza

E tudo foi tão triste

Que o todo fez-se errante

A dor clamou por seu lugar

E com a aquiescência do fim

Ergueram-se suas bandeiras

Com todas as suas cores,

Formas; facetas mil.

 

E dançou dias seguidos

Que arrastaram-se por semanas

E de semanas a meses...

E dançou, dançou, dançou;

Por longos meses dançou

No palco dos dois corações,

(Outrora tão amantes)

E no último ato sapateou, como se

Envolto fosse pelo som de castanholas.

Ali foi tão vermelha, sedutora e contagiante

Que faria inveja a Carmen.

 

Por fim o frio vácuo.

A respiração é suspensa e

O tempo até parou.

Parou para ver a dor desfilar.

 

Dor que deambulou

Suas derradeiras alegorias – uma a uma-

Em uma atemporidade evanescente.

E foi quando tudo, tudo cessou!

Não houve mais cor,

Forma nem movimento.

 

E do silêncio que seguiu-se

Nasceu a lágrima

(Silente e inequívoca)

Que sacramentou

O adeus...e dos lábios

Um sussurro:

- See you later!

 

Jaraguá do Sul – 17-19/06/14


março 15, 2016

Flores natimortas

Na noite passada, sonhei, sonhei.
Sonhos bizarros, ou eram reais?
Ainda não sei precisar!
Sei apenas que vi muitos poetas caídos,
esparramados ao chão pelos caminhos.
Caminhos sombrios, por vezes com raríssima luz,
Ocaso.
Tinham no olhar, uma melancolia quase tangente e,
Paradoxalmente, de suas bocas brotavam flores.
Flores exuberantes que tão logo deixavam de ser botão,
Tão logo secavam!
Algumas, nem a botão chegavam para desfalecer e secar.
Sequer eram aquareladas pelas cores e sem olor tombavam.
Flores natimortas, poemas vazios!
Pobres flores, débeis poemas.
O cantor sobre a pedra dedilhava sua lira. Lira mouca.
Enquanto seu olhar vagava na imensidão à busca de uma réstia
De inspiração.
Poetas abandonados de sí mesmos: sem norte, sem poesia, sem glamour.
Onde as amantes, as luzes dos cabarés, os cafés: recantos dos artistas
Da Cidade luz?
As ruas, outrora habitat desses poetas tem agora apenas o ladrar de cães
Preguiçosos e nos telhados, os olhares furtivos dos gatos. A coruja piou, bateu asas e voou.
Sonhos que pertencem ao passado, paixões que se foram...o ópio...Cronos a tudo consumiu!
De que adiantaram as poesias inebriantes...para tudo acabar em flores...

Flores natimortas!

dezembro 06, 2015

Incauto Coração

O amor, dizem, não tem idade,
Mas metamorfoseia-se em adolescente.
Àqueles que o acolhem uma vez mais, a idade
É o de menos, pois ele chega e num crescente

Invade e instala-se, subjuga as emoções
Apossa-se do corpo como um tirano
Habituado a conquistar nações.
É forte é belo como o poderio romano!

A ele a alma rende-se silente!
Terá esse tirano nascido
Nas entranhas da mente?

Ou nos olhares libidinosos se oferecido,
Ao incauto coração, como o céu de Dante?

O corpo arde; da razão desguarnecido.

Elcio

dezembro 01, 2015

Ser ou estar campeão?

Ser ou estar campeão? De todo modo é fugaz.
Acabou o jogo, título garantido. A festa!
Nos próximos jogos ninguém mais dará o gaz
Para o gol feio, bonito, de barriga, de testa.

A emoção que antecede e gira na mente,
A emoção da partida, do lance capital
É irmã da frustração, inversamente
Proporcional à expectativa ... se ao final

O resultado for adverso. A tristeza!
Porém, se campeão então valeu a pena
Tanto sofrer. Valeu a mandinga, a reza

Aos orixás, amuletos, galinha de pena
Preta, o sincretismo religioso não causa estranheza

Fugaz, talvez, mas com direito festa na arena. 

Élcio A. Rodrigues

janeiro 23, 2015

Instantes

Neste instante:

Nasce uma rosa,
Nasce uma criança,
Nasce uma esperança.


Neste instante:

Cai o orvalho,
Cai um anjo,
Cai a ilusão.


Neste instante:

A gota fresca  d´orvalho
Escorre pela pétala,
O anjo agora é homem feito,
A ilusão virou frustração.


Em breve:

Criança, rosa e paixão terão vivido
Já passaram por seu instante...
Logo serão passado.


Em breve:

A rosa plantada pela criança
Ornamentará seu túmulo
No qual homem feito
Sepultará consigo aquela paixão.


Para sempre:

Haverá de ficar a esperança...
Do homem de ser o mais inteligente;
Da rosa de ser a mais bela;
Da paixão poder transformar-se em amor.

setembro 07, 2014

Saudades de Montmartre

Joseph d'Egoût caminhava solitário e cabisbaixo tinha entre os lábios um bom charuto; um Cohiba. As mãos enfiadas nos bolsos da calça de linho e sobre a cabeça um Fedora levemente inclinado. Ao longe latidos esporádicos rasgavam o silêncio daquela noite; fria noite de agosto.

Os paralelepípedos ladeados por sobrados coloridos e apertados entre si, atados por varais vazios iam deslizando por sobre seus ombros para trás ficando, lenta e melancolicamente a cada passo. O último ônibus há muito passou. Tudo ou quase tudo é silêncio: as pessoas dormem e os cães ladram.

A noite que agora apresenta-se pertence aos excêntricos, aos artistas às prostitutas amadas e amantes de homens e de mulheres; amantes das madrugadas.

Em seu caminhar Joseph d'Egoût recorda-se de madrugadas idas, memoráveis por ele vividas em Monmartre antro boêmio que alimentava-se de poesias e de seus poetas, de aristocratas e desempregados de artistas, intelectuais, viciados, mas, fundamentalmente, alimentavam-se de homens e de almas.

Os musicais cheios de luzes, paralelos à luxúria e à prostituição foi nesse ambiente que viveu o nascimento de novos movimentos artísticos, de artistas como Toulouse-Lautrec que um dia mapeou e expos a alma dessas noites. As saudades de Monmartre corroíam-no, especificamente o número 82 da Boulevard de Clichy, endereço do Moulin Rouge que abraçava a tudo e a todos, fossem ou não ébrios, viciados ou artistas. Ah! o Moulin Rouge!!! Suspira Joseph d'Egoût. Bons tempos. Tempos idos, jamais olvidos.

Uma vez em terras americanas Joseph d'Egoût desfrutava as noites, mas essas noites eram de uma calmaria tamanha que quase sufocavam-no. O início da década de 40 mostrava-se por demais turbulenta, principalmente do outro lado do Atlântico onde a vida em sua Cidade Luz fora usurpada e no dia 14 de julho de 1940 quando a Wehrmacht entra com seus arianos jactantes a marchar sob o Arco do Triunfo, desvirginando o moral parisiense deixava claro: A Champs-Élysées nunca mais será a mesma. Não haveria mais poesia no ar e, sim bombardeios – o armistício fora instaurado -. Sua Paris exporia nos anos seguintes os esqueletos de suas edificações; cadáveres da alegria. Joseph d'Egoût no entanto estava entre os mais de dois milhões de parisienses que rapidamente deixaram a cidade.

A noite é fria e a paz é relativa para Joseph d'Egoût. Ele carrega um coração puído apequenado pelas saudades de sua maltratada e vilipendiada Paris. Num suspiro seus lábios sussurram apenas para seus ouvidos:


- Um dia eu volto pátria amada. Quiçá apenas minha alma, já que essa carcaça ... dificilmente!

Elcio

agosto 04, 2014

A dama da noite e o colibri

Deixei nas Minas Gerais os meus rastros
Pelas montanhas verdejantes,
Entremeio as trilhas dos carros-de-boi.
Os pés nus a pisar o orvalho, a
Terra vermelha, terra de massapé.
Fogão na janela, de lenha.
O cheiro do café no bule a fumegar.
Colibri esnobe bailou
Pela moldura da minha janela.
Deu ré, serpenteou e como um raio
Desapareceu, escafedeu-se
Em meio a tantas cores.
Colibri de vôo rasante!
A dama da noite ficou à tua espera;
(Como alguém por mim).
Algo ficou perdido entre o vir e o não ir.

O bolo é de fubá, cravo e canela,
A touceira de capim cidreira
No pé da porta é contra o mau agouro.
Vida danada! Cria raízes
Na gente prá mode de nunca mais tirá.
E já não há mais como deixar de sentir
Essa dor a futicar nas entranhas.
Dor malvada que tantos chamam saudade.
- Esconjuro.

Novembro vem com céu de brigadeiro e
Traz as jabuticabas, xô passarim!
Antes, porém, as suas flores explodem.
Colibri incestuoso! Quem te ensinou
A todas beijar, a todas cortejar,
Mas sem a nenhuma pertencer?
Uberaba (das sete colinas)
   Um dia eu ainda volto!

julho 22, 2014

Ela chorou

Ela chorou e tudo foi tão lindo
Que o mar em seus olhos
Apequenou-se tímido, indo
E vindo a beijar os abrolhos

Abissais onde seu olhar lânguido;
Perdido ao distante buscou na bruma
Silente o véu que ao ser erguido
Mensurou um coração pela pluma

Nas mãos de Anúbis deus!
Foi quando então, o universo parou
O nada se fez todo num semideus

E o caos foi ser vivente, existindo
Na lágrima que de seus olhos rolou.

Ela chorou e tudo foi tão lindo!

junho 25, 2014

Andança

Andei pelas Minas Gerais em minha infância, andei por cidades que jamais retornei, uma ou outra revi, mas que não me deixaram saudade alguma. Viraram pó levantado e remexido que o vento se aprazou em espalhar aos quatro costados para nunca mais.
Numa delas o amor quis me olhar, mas foi bem de soslaio. Não desejou me encarar, nem eu a ele. Foi risco n´água e tal qual, se desfez!

Mas tive medos, eram medos de criança; quase sempre à noite - alguns carrego até hoje - Medos de morte, mais da morte que do demo, o coisa-ruim, o cramunhão, afinal, segundo minha santa avozinha - que Deus a tenha - o coisa-ruim tem gozo numa barganha e sendo assim, poderia eu até permutar, se fosse o caso, aquilo o que de mais meu fosse: sonhos, desejos, vontades medos; amores talvez, alma...quem sabe?! Dependeria da volta, da oferta e da ocasião.

Mas não me tenha por uma pessoa valente, dessas de andar esquio, com peito arreganhado e palito por entre meio os dentes. Não, nunca fui valente, tanto que ao deitar, não pregava os olhos antes de três pai-nosso e três ave-marias já que algumas noites costumavam ser longas, longas demais e nessas noites de travessias sem fim pra meu espirito eu sequer levantava para urinar. Me apertava, retorcia, gemia, mas não colocava o pé no chão enquanto o astro-rei não alumiasse tudo, tudo e as trevas malditas da noite fossem todas elas queimadas, como as bruxas voadoras o eram no passado. E assim, pela fé pouca nos meus santos esse demônio teimava deitar morada no meu peito a fim de me meter medo.
Gritei por ele para que se mostrasse e nada. Não pode ser ser vivente: Ele não tinha carnes de comida da terra, não possuía sangue derramável...” não, o demônio não é vivente, não é coisa de Deus, nem é coisa de Nosso Senhor Jesus Cristo, vencedor de toda treva e também dessas minhas valas abissais onde se enclausuram todos meus medos...medos de coisas dessa vida e de coisas que não se toca é o etéreo.

Não contei, mas nessas viagens sempre tinha meu pai ao lado, homem de pouca fala e riso nenhum; nunca soube nada dessas coisas que me carcomiam as entranhas. Eu por minha vez nunca soube se andava acompanhado ou só com meus devaneios! Caminhava apenas, e assim ia, dia contra dia; alinhavado e costurado pela noite de cada um!

Por quantas estradas de terra empoeirada e esburacada andei, ladeadas por barrancos que carregavam cercas farpadas não sei precisar. Tantas curvas, tantas retas foram; paralelas empoeiradas. Na boleia do caminhão havia um silencio sepulcral. Boleia que a mim se mostrava como um ser alado com um vento que permeava a gente e o vento na minha cara, minha cara no vento a zunir na janela, debruçado. Solavanco após solavanco. Era de sol e poeira. O som fora da boleia além do vento, era o contínuo e ritmado rugido do motor a gasolina do velho Ford preto 57.

Ah! Na vida a gente envelhece e carece de ter memórias para que em cima delas possa repousar a carcaça que endurece e assim ofertar ao espírito alguma coisa de valia por ter arrastado as carnes da gente... carcaça que tanto valeu para o labor quanto para as paixões que a vida dá a cada um e que cada um consome como lhe apraz; uns mais, outros menos, uns consomem como o fogo que devora graveto seco das árvores empoeiradas de beira de estrada. Já outros são mais parcos, como os dias quentes e morosos das tarde de verão. Tem valia não: o fogo come. Deveras.

Elcio

junho 19, 2014

Evanescente

E eles foram assim:
Tornando-se ausente
A cada passo,
A cada dia,
Rumo a um adeus
Cada vez mais previsível
Quanto inexorável.
E então o fim apresentou-se
Com toda pompa e circunstância
E à sua volta instaurou a tristeza
E tudo foi tão triste
Que o todo fez-se errante
A dor clamou por seu lugar
E com a aquiescência do fim
Ergueu suas bandeiras
Com todas as suas cores,
Formas; facetas mil.
E dançou dias seguidos
Que arrastaram-se por semanas
E de semanas a meses...
E dançou, dançou, dançou;
Por longos meses dançou
No palco dos dois corações,
(Outrora tão amantes)
E no último ato sapateou, como se
Envolto fosse pelo som de castanholas.
Ali foi tão vermelha, sedutora e contagiante
Que faria inveja a Carmen.

Por fim o frio vácuo.
A respiração é suspensa e
O tempo até parou.
Parou para ver a dor desfilar.
Dor que deambulou
Suas derradeiras alegorias – uma a uma-
Em uma atemporidade evanescente.
E foi quando tudo, tudo cessou
Não houve mais cor,
Forma nem movimento.

E do silêncio que seguiu-se
Nasceu a lágrima
(Silente e inequívoca)
Que sacramentou
O adeus...e dos lábios
Um sussurro:

- See you later!

junho 16, 2014

Ensaio do amor distante

"Aos olhos da saudade
como o mundo é pequeno"
Charles Baudelaire



Um amor quando distante,
Machuca esfola, maltrata.
É noite é desespero que
Come a carne da gente.

E quando esse amor vive em segredo
É ainda pior, pois na saudade
Mora a vontade de chorar.
Mas isso não lhe é permitido.

Então, vem uma vontade
De gritar o seu nome.
Aos quatro costados.
Mas isso não lhe é permitido.

Você é prisioneiro em seu próprio peito,
Enquanto que algoz de si mesmo.

Quando o amor existe em segredo
Dilacera as entranhas, sufoca o peito,
E este claustro fica deveras pequeno.

Na alma, a mortalha da saudade
Comprime-te, mas também isso
Tem que ser segredo e você sorri.

E tenta contentar-se quando vir
A ampulheta do tempo a girar, girar, girar.

Talvez, mas apenas talvez, teu amor
Também sofra agora. Mas, nem isso é certo.

Seu amor talvez possa estar
Mais distante do que se imagina.
Talvez tão distante que você nem mais o alcance.

Talvez teu amor tenha se cansado
 De sofrer de ausência (sempre tão presente).
E tenha saído para balada. Talvez, apenas talvez,
Tenha encontrado alguém que se fez interessante.
Alguém que se fez próximo. Talvez próximo até demais.

E essa dor é lancinante
Tanto que a vontade de se matar
Já se apresenta plausível.
Talvez plausível até demais.

Dirão: é a lei da selva!
Sim. Pode ser!
Mas, um amor quando distante
Metamorfoseia-se na saudade.
Esse veneno da alma da gente
Que tem por cria o ciúme.

Ciúme que se alimenta de dúvidas
Numa antropofagia insana
E isso mata a gente quando o amor
Tem que ser distante e em segredo.

junho 05, 2014

"Adeus também foi feito pra se dizer"


E foram anos tantos
Anos sem fim
E seguiram-se décadas tantas
Décadas sem fim
E o amor há muito minguado
Arrastou-se por anos décadas tantas
Décadas sem fim
E no dia que ele partiu
Era a solidão tanta
Solidão sem fim
Sem adeus


 

 
 

 


maio 30, 2014

O gato

Numa dessas noites frias e úmidas, dessas que ninguém quer mexer-se muito eis que chega em meu telhado um gato. Um gato malhado que nunca havia pisado em minhas telhas.
Olhei-o em silêncio. O gato malhado aproximou-se e (...) bem, não posso dizer que miou, foi quase, quando muito, algo próximo disso.
- Mi au au! mi au au!
Achei aqui muito estranho e perguntei ao gato malhado:
Tudo bem contigo? fala duas línguas ou é bipolar?
- Não é bem assim!
Respondeu-me o gato malhado, mas eu explico, aliás, como sempre preciso fazer quando mio perto de estranhos:
- Aconteceu quando eu ainda estava em minha primeira vida, recém-nascido e mamava em minha mãe. Na primeira semana a menina que cuidava da nossa ninhada resolveu colocar-me para mamar na cadela prenha da família. Uma, duas, três, vezes seguidas. E foi dali em diante que nunca mais miei como os outros gatos. Até análise já fiz, uma vez que o fonoaudiólogo jogou a toalha.
- Mi au au! mi au au!
E assim como chegou naquela noite fria sobre o meu telhado; foi-se embora aquele gato estranho, aquele gato – já disse que era malhado?


Élcio

novembro 03, 2013

Lembrança

Como és forte: lembrança!
És deusa ou semideusa (guerreira)
Que traz à ponta de sua lança
O fel que unta a pederneira?

Chegas, assim, apenas chega
Num olhar perdido olhar
Que nada traduz, apenas chega.
Teu prazer: nossa alma enxovalhar

Vilipendias o túmulo. Execração!
Há muito lacrado e silente.
Nele buscas a ressurreição

Daquele sentimento outrora inocente
Que teve o frescor da adoração

Mas o ocaso deitou-o ... no poente!

Élcio

junho 27, 2013

Sonhos empalados

Os sinos da catedral estão moucos
E um vento frio transpassa o peito.
Esvoaçam meus sonhos poucos
Sensatos, já do lógico, nada afeito.

Quantos sonhos foram empalados
E, que ficaram para trás, nas paralelas
De meus caminhos empoeirados?
Jamais sepultados. Mazelas!

À frente, anjos frios e estáticos
Aguardam-me os derradeiros
Passos; vacilantes e patéticos.

Creio que quando o novo atirar sua lança,
Virá que eu vi; no flamejar dos candeeiros,
A única chama (tênue) dessa tal esperança!

maio 30, 2013

Sertão do demonho

Eu cuspi na terra rachada
Do sertão que nem molhar
Molhou; não vingou molhada.
Terra dura pra ser vivente; pra olhar.

Diabo do meio do redemoinho
Saltou e dançou, dançou aluziu.
Cuspiu na minha cara. Demonho...
Cravejo-te de bala na ponta do fuzil!

Sertão é vida e morte sertão. Melindroso!
Ou ele ajuda ou é traiçoeiro predador.
Há que ter valentia ante o desastroso;

Esquecer que vida tem. Vale nada!
“O passado é ossos em redor

De ninho de coruja.” É navalhada.

Élcio (quando lia Grande sertão: veredas)

maio 22, 2013

Amor sem sombras


Dou-te minha paz, meu corpo.
Sereno quando disto do teu,
Próximo sou rijo, sou Édipo
Sou crente, pagão. Sou ateu.

Ouvi de amigos tantos:
Paixão assim não existe.
A não ser para os tontos
E diziam com dedo em riste.

Revi então meus conceitos
Tentei calcular o tamanho
De meus sentimentos
E sempre me via em teu ninho.

Imerso em teus braços,
Perdido em teu corpo.
Hoje me encontro em teus laços.
Atado, preso e jogado ao limbo.

Nunca vivi nada parecido
A este mundo, nunca, jamais.
Mundo de entrega. Esquecido
Livre de mazelas. Meu cais.

Há quem possa duvidar,
Não dar créditos às minhas juras.
Dirão serem palavras a olvidar,
Falácia, um amontoado de mentiras.

Assim, sigo entregue a essa mulher.
Com todas, todas as fibras
De meu corpo. Cada uma a arder
Por ti. Sou amor: claro e sem sombras.

Élcio

maio 05, 2013

A morte é doce como um sábado no parque


Quando paridos
Recebemos da morte
Sua chancela
Num sussurro: Voltarei.

Nossa primeira certeza.
É tão certo, mas tão certo quanto
O amor de mãe.

Frágeis chorões que somos
Embalam-nos nas cantigas.
E sonhamos adolescentes o que
Às vezes realizamos adultos,
Até que velhos, curvamo-nos
Num dia de sábado.

É dia de parque,
Algodão doce na boca
E carrossel a girar.
Carrossel que jamais parou
Girou criança,
Girou adolescente
Girou adulto, mas
Gira agora com preguiça. Lento.
Escurece-nos as vistas,
O som do realejo diminui
E tudo gira; como o carrossel.

É o sinal (há muito temido)

Ao menos na boca tem
Algodão doce.

Ela voltou para
Cumprir a sentença.

O carrossel parou. Ouvidos moucos
Nenhuma voz. Nada.

O algodão doce está no chão.

Quando desencarnamos
Recebemos da morte
Sua chancela
Num sussurro: Voltei.

Jaraguá do Sul, SC
Ao meu querido Moisés.

abril 15, 2013

Eu...seminu


Eu quero o vento forte
Na cara em dia quente
E uma preguiça de morte,
Quase que entediante.

Eu quero o lábio gelado
No sorvete de mangaba.
Quero o beijo encantado,
Qual as tardes de Uberaba.

Mas, que seja de modo tão intenso
Que mesmo depois pelas ruas, avenidas
E praias, venha a ser apenas no que penso.

Eu quero um dia responsável.
Sem terno nem gravata: Seminu;
Como um soneto (...) Quase sem rimas.

Élcio

abril 04, 2013

O Medo


“Homem foi feito para o sozinho? Foi. Mas eu não sabia.”
Riobaldo – Grande Sertão:Veredas

O medo da gente vem num sopro.
E nos atinge e nos tange e nos marca, mas, não nos abandona.
Como o diabo
Na noite de nossa encruzilhada.
Encruzilhada de terra batida, terra massapé.
O diabo das nossas batalhas.
O diabo nas nossas batalhas sem sentido. Só batalhas.
O diabo que nos tira do peito a nobreza e deixa um coração falido
Que na noite sem lua, espreita de soslaio à morte na parede de adobe em cal.
Na parede, cravada com trinta e cinco facadas, há um corpo que sangra. É Severino Silva não é São Cristóvão é Severino apenas; um cangaceiro que já  acusa o hálito da morte em suas ventas.
Nas suas feridas pousa a primeira mosca-varejeira que sem perda de tempo, põem-se a lamber-lhe a carne exposta: crua, vermelha, em posta.
Pendurada ao lado, na corda de sisal, um corpo de mulher, ainda balança;
Pálida em cera, sob as cores vivas da chita. A morte!
Na cara de terror, lábios roxos, os olhos arregalados, já não têm lume.
É a escuridão é a solidão de cada um no momento da morte.
“O sertão é sem lugar”.
É a tragédia é a guerrilha urbana nossa de cada dia que nos trás essa herança fria, rija e feia em cadáveres da desesperança.
Cadáveres de ouvidos moucos que jamais ouvirão outra vez os sons do sertão: desde o silêncio do velho Chico que lambe com suas águas os barrancos e as canelas dos meninos, até o carcará, o bem-te-vi, o socó, assumpreto, o rasga-mortalha, o irerê e o xexéu: aves do nosso céu.
Tão pouco os sons da metrópole: As sirenes apressadas as buzinas histéricas, as árvores poucas, algumas nuas pelas ruas duras...agressivas.
O último suspiro e fecham-se as suas janelas em crime e castigo.
A quem fica, cabe a peleja do dia-a-dia e essa gastura que cansa os ossos, os nervos maltrata, e enche a algibeira com os medos que o coisa ruim, descobre e planta na gente.
Na metrópole e no sertão tudo se fez caos, como o caos do universo misterioso de Diadorim em suas dualidades.
Deus e o capeta. Vida e morte, carinho e receio. No sertão o afago é órfão; na metrópole também.
É o sertão nosso de cada dia, o medo nosso de cada noite, e a fumaça presa na garganta.
Em cada alma há um sertão.
“O sertão é o mundo”!
É um emaranhado de vidas e histórias sob a complacência das estrelas.
Estrelas dos sertões de todos nós em nós atados, já que:
“O sertão está em toda a parte”.

O medo também!

Élcio