terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A morte é doce como um sábado no parque

Quando paridos,
Recebemos da morte
Sua chancela
Num sussurro: Voltarei.

Nossa primeira certeza.
É tão certo, mas tão certo quanto
O amor de mãe.

Frágeis chorões que somos
Embalam-nos nas cantigas.
E sonhamos adolescentes o que
Às vezes realizamos adultos,
Até que velhos, curvamo-nos
Num dia de sábado.

É dia de parque,
Algodão doce na boca
E carrossel a girar.
Carrossel que jamais parou
Girou criança,
Girou adolescente
Girou adulto, mas
Gira agora com preguiça. Lento.
Escurece-nos as vistas,
O som do realejo diminui
E tudo gira; como o carrossel.

É o sinal (há muito temido)

Ao menos na boca tem
Algodão doce.

Ela voltou para
Cumprir a sentença.

O carrossel parou. Ouvidos moucos
Nenhuma voz. Nada.

O algodão doce está no chão.

Quando paridos
Recebemos da morte
Sua chancela
Num sussurro: Voltei.

Élcio

(Àquele que chegou: Meu querido Moisés)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Aquarela

Eu pintei com nanquim o meu mar.
De branco pintei a areia, fina areia
E obtive, assim, um espumar
Com rajadas brancas. A mancheia

A maresia salpiquei com cravo e canela.
Pus no alto da rocha o vento Sul a pentear
Seus cabelos negros (como o mar). Da janela
De seus olhos castanhos usei a luz para nortear

A vida dos marujos e suas caravelas
Notívagas, infladas de ar e de ambições,
Sempre dispostos a abalroar cidadelas.

Aquarela de contrastes delicados, sensações
De paz e de guerra, homens rudes e donzelas
Sereias: cantos e contos num mundo de seduções.

Élcio

sábado, 16 de janeiro de 2010

“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei.”(*)

Quando findar mais essa encarnação
Não quero corbelhas com frases douradas,
Nem prateadas, dispenso essa obrigação.
Coisa que não faço conta são as despedidas.

Aos amigos peço apenas uma flor de Liz,
Uma cova que não seja rasa por demais
E algumas belas palavras, escritas com giz
Quiçá! Basta que impressione os demais,

Principalmente algum credor que por certo,
Há de estar à espreita de meu advogado
A fim de cobrar o que agora se fez incerto.

Espero assistir (meu velório) ao meu lado,
Mas enquanto o caixão estiver aberto.
É que morro de medo de ficar entalado.

(*) Allan Kardec, saiba mais aqui.

Élcio

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A menina e o vento no ventre

Um vento tão malicioso quanto safado
Pelas pernas da menina foi se meter
E ali rodopiou, rodopiou inebriado
A beijar-lhe as coxas; e nada temer.

Do rosto da menina rouba as cores,
As maças e descompassa-lhe o coração;
O corpo arde numa onda de calores;
Já no olhar, há uma velada satisfação

Que aos olhos faz cerrar: sonolenta!
As mãos sobre o ventre espalmadas
Buscam segurar toda tormenta...

Foi-se o vento, ficaram as coxas molhadas
Da menina-moça, que agora recorda na ponta
Dos dedos o vento safado e suas bolinadas.

Élcio

domingo, 20 de dezembro de 2009

Amor Herói

Deus sabe como eu quero,
E mais, quanto eu quero!
Viver um amor bandido,
Mas nada arrependido.

Isso não! Basta que seja
Simples, despojado e veja,
Em meu amor, o seu herói,
Que encara mazelas e as destrói.

Como destrói a mundos interplanetários,
Que salta sofás, almofadas e armários
Com seu tigre Haroldo à tira-colo.

Amor bandido enquanto amor criança.
Livre na inocência que enlaça,
Aperta, cheira, morde e dá colo.

Élcio

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A minha dor, o circo levou

Nossa decepção ficou pesada demais
Para ser arrastada para fora dessa
Noite; outrora cúmplice, hoje não mais!
O ciúme fez em nós verdadeira devassa.

E a mágoa, filha do ciúme, pintou com cores
Frias o nosso olhar. O nosso destino,
Antes farto dos planos de amores,
Enfartou, rodopiou e caiu em desatino.

Até que a banda chegou anunciando
O circo com os seus palhaços,
Animais; malabaristas dançando.

Meu coração de saltimbanco exultou.
Foi à rua e dançou e desdenhou dos soluços
E seguiu o mambembe, de onde nunca voltou.


Élcio

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Deus de Azeviche

Ela sempre fora dona de seus atos,
Mas, também possuía uma fraqueza:
Homem negro, musculoso, além de alto.
Seu tendão de Aquiles, com certeza!

E num domingo de praia, o seu fetiche
Lá estava. Nas formas, um deus grego
A exibir músculos na pele de azeviche.
Dali por diante seria esse desassossego

Que a deixaria com a alma em desalinho;
Refém do olhar que consumou o beijo,
Também consumaria o descaminho;

Cria das surdas paixões do desejo.
E surdo foi o grito natimorto. Desalinho
Da alma de mulher que penou por desejo.

It's all true!

Élcio