quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Estigmas

Em encarnações pregressas
Devo ter aprontado poucas
E boas. Vivido às avessas
Junto ao mar, pelas docas;

Ladeado por estivadores,
Ratazanas e prostitutas
Madames, doutores
Atrás das frutas...

Hoje quando encaro
O mar, vivo enigmas,
Sinto gritar a alma de bárbaro.

Alma que outrora viveu dogmas
E hoje sonha sonhos de Ícaro.
Apenas sonha: presa a seus estigmas.

Élcio

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Eu, seminu

Eu quero o vento forte
Na cara em dia quente
E uma preguiça de morte,
Quase que entediante.

Eu quero o lábio gelado
No sorvete de mangaba.
Quero o beijo encantado,
Qual as tardes de Uberaba.

Mas, que seja de modo tão intenso,
Que mesmo depois pelas ruas, avenidas
E praias, venha a ser apenas no que penso.

Eu quero um dia irresponsável.
Sem terno nem gravata: Seminu;
Como um soneto assim; quase sem rimas.


Élcio

domingo, 8 de novembro de 2009

Menino vadio

Vai menino vadio,
Pelas ruas, nuas.
Pernas desnudas e
Cabelos cacheados.

Vai menino vadio,
Que chuta a bola,
Que chuta a pedra,
Que chuta a lata,
Que chuta a vida.

Vai menino vadio,
Lança teu olhar além
E busca a quem
De muito longe vem;

Naquele trem
Que come as paralelas,
Pelas colinas a serpentear
E para ela se faz insinuar.

Vê? Ele vem a balançar,
Quase a embalar;
Pela vida a cantar,
Pela vida a voar.

O apito a apitar,
O carvão a arder,
O vapor a moldar nuvens.
Carneirinhos nos céus. Vê?!
Para traz ficaram!
E lá se foi o trem.

Vai menino vadio,
Lança essa bola,
Depressa, vai; rola!

Olha aquela pomba-rola!
Estilingue na mão,
Goma tencionada,
Nervos também.

Fez mira,
O dente cerrou,
Atirou!
Voou...
Errou...

...mas a vidraça acertou.

Corre que lá vem o grito!

VAI MENINO VADIO!

Élcio

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma noite qualquer...sem sono

E essa madrugada quente,
Infinita, envolta num ar pesado
Que se arrasta quase silente.
Não fosse o tic-tac compassado

Desse relógio filho de quenga
Que mostra o tempo (a correr)
Com voz alta. Pendenga.
Morfeu venha me socorrer,

Pois os carneirinhos em greve
Deram agora para me encarar.
Cada um mais ocioso e nada leve.

Ah eu não queria essa noite varar,
Assim, sem sono feito gente que deve.
Se ao menos o teto parasse de girar!


Élcio

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Linhas

A cada linha percorrida
Em teu corpo
Minha alma sussurra
Um poema: que não declamo;
Uma musica: que não canto.
Em teu corpo
A cada linha percorrida.

Elcio

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Remanso

Serei amor, ainda que distante.
E quando a lágrima nascer,
Serei saudade, pois, errante
Vivi das noites a renascer

E a morrer na solidão. Exílio
De um amor vívido outrora.
Hoje se perdeu se fez imbróglio
E com ele, jaz a última aurora.

Luz amêndoa, refletida nas espumas
De um mar de calmaria sob o ocaso
Sereno, como serenas, são as brumas

A envolver o barco que desliza manso
E alheio às águas devoradoras de almas,
Amores e temores. E tudo finda; num remanso.

Élcio

domingo, 11 de outubro de 2009

Sem graça

Será que há algo tão sem graça
Quanto uma piscina vazia,
Ou uma pedra sem vidraça?
Um carnaval sem primazia

Ou ainda uma praça sem parque?
E quermesse sem prenda de bingo,
Ou Caetano sem Chico Buarque?
Talvez, feriado em dia de domingo?

Festa de aniversário sem doce brigadeiro?
E fazer dieta no inverno, comer linhaça,
Soja e às vezes um pouco de molho tártaro?

E esse Sarney que vive numa couraça,
Impune e jactante com nosso dinheiro?
Será que há algo tão sem graça?

Élcio