abril 05, 2011

Dilema

Amo-te anjo. Sagrado e profano. Amo-te viril.
Desejo-te qual criança pelo fruto maduro e tenro
Dos vinhedos espargidos pelos olores de abril;
Tão abundantes no mosteiro de Santo Amaro

Da minha infância. Aprendi, pois, que toda solidão
De uma noite cabe n´alma daquele que apaixonado
(E desatento) perambula sem norte pela vastidão
Dos poemas de um relicário ora virado, ora revirado.

Dou-te meu corpo, e trago-te o sabor do anis no lábio
E nesta paz mergulho em tua alma afim de nela perscrutar
Cada segredo recôndito que julgavas um alfarrábio

Quando em verdade teu segredo maior está a gritar.
Só teu espírito finge-se mouco e deveras dúbio
Entre o racional e o promiscuo: afinal, a que voz acatar?


Élcio

março 29, 2011

Por enquanto... Fechada para balanço!

Ela resolveu fechar para balanço
E mergulhou fundo em seu eu
Uma vez que vivia todo o ranço
Daquela decepção. Vivia o breu.

Não estava fácil lidar com aquela
Situação. Doía qual ter um espinho
Na carne onde a dor se fizera sentinela.
Agora ao cair da noite há um burburinho

A tirar o sono dessa mulher finíssima.
Louçã! Verdadeira filha de Iansã em atos,
Palavras e uma alma que transborda carisma.

Sentimento moído, feito bagaço.
Triturado que fora nas mós da mentira!
Por enquanto... Fechada para balanço.

Élcio

março 23, 2011

Amor Herói

Decididamente eu quero.
Ah e, como quero!
Viver um amor bandido.
Longe de ser empedernido

Isso não, porém, que seja
Antes de tudo, despojado e veja,
Em meu amor, o seu herói.
Que encara as mazelas e as destrói

Como destrói a mundos interplanetários,
Que salta sofás, almofadas e armários
Com seu tigre Haroldo a tira-colo.

Amor bandido enquanto amor criança.
Livre na inocência que enlaça,
Aperta, cheira, morde e dá colo.

Élcio

março 14, 2011

Ele & Ela

Postado ali, imóvel. Um ninja!
Atento ao silêncio de seu respirar
Ele fez-se guardião de seu sono,
De seu peito; naquela noite despedaçado.

Tamanho era seu enlevo que implorou
A Cronos que apressasse o tempo
Para que o fim do martírio logo chegasse.

Sonhos...
Sonhos de fazê-la ninar,
Um chamego, Um dengo,
O colo, Sonhos...

E ela com sonhos agitados,
Peito sufocado,
Vontade de chorar
E nada de Cronos
Atender às suas preces.

Tamanha a afinidade
Que dia a dia descobriam
Era de surpreender.

Contudo, não era plena,
Afinal de contas, ele gostava
De pizza e sorvete.

Ela não!

Élcio

março 06, 2011

Eu te espero

Eu te espero enlaçado pela ansiedade
Misto de dor e prazer.

Eu te espero
Como a aurora pelo fim da noite,
Como a bicharada pela
Explosão de vida da primavera;
Como a fonte anseia o mar;
Como a mãe ao rebento;
Como a fruta a ser mordida;
Como correr na enxurrada;
Como devorar Guimarães Rosa;
Como o alívio ante o medo.

Eu te espero!

Élcio

fevereiro 26, 2011

Algodão Doce

Onde termina o certo
E começa o errado
Se caminham tão perto,
Assim, um no outro colado?

Algodão doce, Pipoca, bem-casado.
Vontade de´oce rasga a carne. Insano.
Acendo uma vela p´ro sagrado;
Outra de igual tamanho pr´o profano.

Amanhã hei de cultuar
O ócio. Nada de correr nem
Suar, só de papo pr´u ar.

Da cama nem vou levantar
Tão cedo e, se nela morrer
Encomendem minh´alma num altar.

Élcio

fevereiro 15, 2011

E foi tanta água...

E foi tanta água que tudo caiu.
A carola se perguntou:
“qual será o recado de Deus?”
Outras pessoas se atinham a recolher
Seus pertences, alguns
Escalavam as casas,
Destino final; a laje.
Meninos e meninas
Correm pela enxurrada
Enxurrada que logo vira rio.
Rio de correnteza acelerada, devoradora
De meninos e meninas, criação
Se bobear vai também.
Os olhos buscam os céus
Em prece para que a chuva cesse
Enquanto os pés são
Devorados pela lama.
Relâmpago alumiou o céu
Há muito órfão de estrelas.
Veio o estrondo
Ouvido zuniu.

E foi tanta água que a internet caiu!

Élcio